Se eu pudesse estar mais tempo contigo, a minha vida seria mais bela.
A melancolia entorpeceu-me a mente, entrou pelos meus dedos e lentamente endureceu-me o génio, os nervos, a carne e os ossos.
O meu espírito, cansado de viver em águas insalubres, reclama o sal perdido.
Neste quarto escuro onde passo os meus dias sempre iguais, o sangue corre devagar.
O Outono chegou e o quarto ficou ainda mais escuro. Na penumbra vou continuar.
Nos bastidores da vida, a ver passar a dos outros. Eterna espectadora, sem saber o que fazer com os dons que Deus me deu.
Enquanto espero pela primavera, escrevo para existir.
Mas não é de ti que sinto falta. Na realidade, sou eu quem me faz falta.
É comigo que quero estar a sós, a deambular pelas ruas, becos e vielas da cidade branca.
Deixar-me contagiar pela energia cosmopolita de uma cidade com um passado glorioso, que ao mesmo tempo conservou o tipicíssimo dos bairros onde se juntam o fado e a saudade.
Ser um peão anónimo, nos passeios apinhados de gente, nas passadeiras a observar os transeuntes que estão no outro lado. Rostos anónimos de homens, mulheres e crianças de todas as raças, gostos e feitios. Os sons da cidade distraem-me. Semáforos sonoros, os comboios do Rossio, os eléctricos, os pregões das vendedoras de flores da rua Augusta e o chilrear das gaivotas no rio Tejo.
Mas não há bela sem senão e Lisboa não é excepção. Têm sete colinas. Se quisermos poupar algum tempo e pernas, podemos usar o metropolitano, que para mim é a mesma coisa que descer ao inferno. Os meus níveis de ansiedade ficam nos píncaros. A começar pela claustrofobia, que pode provocar sensações muito desagradaveis, tais como; taquicardia, falta de ar, tonturas, etc.., para as pessoas mais sensiveis ou inexperientes pode ser uma experiência aterradora. E como se não fosse suficientemente penoso, pensar que vamos morrer nos próximos minutos, ainda temos que tolerar o ruído infernal do metro e o cheiro nauseabundo a urina, metal e odores corporais alheios.
Entro num estado de hipnose, induzido pelo o som repetitivo das rodas a deslizar nos carris e pela voz automática que anuncia as estações seguintes. Observo com apatia os cartazes publicitários, as obras de arte nas paredes das estações e alguma pessoa em particular.
Depois de tudo isto, ainda tenho que sair dali para fora. Centenas de pessoas a sair do metropolitano, numa marcha ritmada de centenas de pés a bater nas superfícies metálicas, cria em mim a impressão de que somos um exército de autómatos, uma espécie de prenúncio apocalíptico.
A cem metros de distância, vislumbro a tão esperada luz ao fundo do túnel. Nesta altura já só tenho um pensamento;
- NICOTINA!
Abri a mala para tirar o tabaco e o isqueiro. Depois de a fechar lembrei-me que precisava dos óculos de sol, abro-a de novo, retiro os oculos de sol da bolsa e coloco-os. Entro nas últimas escadas rolantes e sou empurrada por um transeunte apressado. Ocorreu-me que podia ser um carteirista, mas respiro de alívio, ao constatar que a mala estava fechada, nesse instante reparei que telemóvel estava a vibrar. Abro novamente a mala e depois de muito vasculhar, não o encontro. Perco a chamada e o decoro. É que nestes momentos os palavrões, são o único alivio para o stress. Finalmente encontro o telefone e já estou na rua.
Acendo o cigarro e em simultâneo vejo quem me ligou. Esboço um sorriso radiante ao universo, enquanto procuro o lugar ideal para poder responder tranquilamente, à chamada telefónica tão desejada.
Respiro profundamente, e na minha mente surge um pensamento;
- Este é um daqueles momentos, que me faz sentir que sou uma sobrevivente. Solto uma gargalhada interior e ligo para a pessoa.
- Onde estas?
- Estou no Rossio. Acabei de sair do metro e tu nem imaginas como me sinto triunfante!
Do outro lado, alguém muito divertido diz:
- O quê? Sentes-te uma sobrevivente, apenas por teres feito uma viagem de metro?
O cigarro chegou ao fim.









