Sem Preferência de géneros

13
Jan 14


O dia hoje foi solarengo e ventoso. De manhã o vento uivava e eu não gosto nada daqueles assobios, pois sempre que os ouço reportam-me para uma memória emocional algures na infância de desamparo. Nesta casa era a primeira vez que ouvia o Bóreas, o vento frio e violento do Norte. Segui a sua música infernal e fui dar à cozinha, estava explicado, a porta para o terraço tinha uma pequena folga. Fechei a porta da cozinha, aumentei o som da aparelhagem e ignorei-o. Depois do almoço sentei-me em frente ao computador, sem saber muito bem o que fazer com ele. Olhei lá para fora, para o jardim a apreciar a beleza daquele vento selvagem, que envolve todas as coisas numa áurea de mistério. As árvores dançam submissas ao seu poder, junto com as sementes trás consigo as notícias do passado e do futuro. Não me recordo se alguma vez tinha pensado nele assim desta forma. Depois de ouvir as notícias que o vento me trazia, lembrei-me que na véspera tinha pedido ao universo que me enviasse uma mensagem para que eu pudesse lembrar-me dos meus sonhos esquecidos. Sabia que os tinha perdido, mas algo me dizia que ainda estava a tempo de os recuperar, onde os teria deixado? A resposta apareceu de imediato na minha mente, deixei-os naquelas pedras da ribeira onde eu brincava. Pedras essas que podiam ser tudo, desde aviões a barcos, Casinhas de brincar, lugar mágico onde eu sonhava acordada. Sonhar acordada é isso! Estive tão ocupada a tentar ser perfeita, que nem me apercebi que a vida se tinha tornado demasiado séria. Desde que deixei de brincar e a vida nunca mais foi a mesma coisa. Temos que sorrir á vida para que ela nos possa retribuir. Crescer não implica que tenhamos que abdicar de brincar, pelo contrário se o fizermos perdemos a inocência e consequentemente a capacidade de imaginar, que não deve ser subestimada, pois ela cria uma realidade tão verdadeira e vital como a realidade aparente. Nenhum destes mundos é melhor ou pior que o outro o erro está em optar só por um deles. Se escolheres viver na realidade aparente e abandonas o mundo da imaginação, a vida parece-nos mais estável, menos imprevisível, mas não passa de uma falsa estabilidade.
Os nossos ancestrais já conheciam o estado de impermanência do universo, que nada está parado e que tudo o que existe se encontra num movimento perpétuo de respiração e expiração primordial ao qual estamos ligados. A força que nos liga a essa matriz independentemente do nome que lhe damos não lhe podemos negar a existência. Se não a usarmos perdemos o poder sobre a nossa vida, ficamos á deriva com medo de tudo e de todos e sem ela não existe esperança.
publicado por Aversão Beta às 14:37

04
Out 12

 

Se eu pudesse estar mais tempo contigo, a minha vida seria mais bela.

 

A melancolia entorpeceu-me a mente, entrou pelos meus dedos e lentamente endureceu-me o génio, os nervos, a carne e os ossos.

O meu espírito, cansado de viver em águas insalubres, reclama o sal perdido.

Neste quarto escuro onde passo os meus dias sempre iguais, o sangue corre devagar.

 

O Outono chegou e o quarto ficou ainda mais escuro. Na penumbra vou continuar.

Nos bastidores da vida, a ver passar a dos outros. Eterna espectadora, sem saber o que fazer com os dons que Deus me deu.

Enquanto espero pela primavera, escrevo para existir.

 

Mas não é de ti que sinto falta. Na realidade, sou eu quem me faz falta.

É comigo que quero estar a sós, a deambular pelas ruas, becos e vielas da cidade branca.

Deixar-me contagiar pela energia cosmopolita de uma cidade com um passado glorioso, que ao mesmo tempo conservou o tipicismo dos bairros onde se juntam o fado e a saudade.

 

Ser um peão anónimo, nos passeios apinhados de gente, nas passadeiras a observar os transeuntes que estão no outro lado. Rostos anónimos de homens, mulheres e crianças de todas as raças, gostos e feitios. Os sons da cidade distraem-me. Semáforos sonoros, os comboios do Rossio, os eléctricos, os pregões das vendedoras de flores da rua Augusta e o chilrear das gaivotas no rio Tejo.

 

Mas não há bela sem senão e Lisboa não é excepção. Têm sete colinas. Se quisermos poupar algum tempo e pernas, podemos usar o metropolitano, que para mim é a mesma coisa que descer ao inferno. Os meus níveis de ansiedade ficam nos píncaros. A começar pela claustrofobia, que pode provocar sensações muito desagradaveis, tais como; taquicardia, falta de ar, tonturas, etc.., para as pessoas mais sensiveis ou inexperientes pode ser uma experiência aterradora. E como se não fosse suficientemente penoso, pensar que vamos morrer nos próximos minutos, ainda temos que tolerar o ruído infernal do metro e o cheiro nauseabundo a urina, metal e odores corporais alheios.

 

Entro num estado de hipnose, induzido pelo o som repetitivo das rodas a deslizar nos carris e pela voz automática que anuncia as estações seguintes. Observo com apatia os cartazes publicitários, as obras de arte nas paredes das estações e alguma pessoa em particular.

Depois de tudo isto, ainda tenho que sair dali para fora. Centenas de pessoas a sair do metropolitano, numa marcha ritmada de centenas de pés a bater nas superfícies metálicas, cria em mim a impressão de que somos um exército de autómatos, uma espécie de prenúncio apocalíptico.

A cem metros de distância, vislumbro a tão esperada luz ao fundo do túnel. Nesta altura já só tenho um pensamento;

 

- NICOTINA!

 

Abri a mala para tirar o tabaco e o isqueiro. Depois de a fechar lembrei-me que precisava dos óculos de sol, abro-a de novo, retiro os oculos de sol da bolsa e coloco-os. Entro nas últimas escadas rolantes e sou empurrada por um transeunte apressado. Ocorreu-me que podia ser um carteirista, mas respiro de alívio, ao constatar que a mala estava fechada,  nesse instante reparei que telemóvel estava a vibrar. Abro novamente a mala e depois de muito vasculhar, não o encontro. Perco a chamada e o decoro. É que nestes momentos os palavrões, são o único alivio para o stress. Finalmente encontro o telefone e já estou na rua.

 

Acendo o cigarro e em simultâneo vejo quem me ligou. Esboço um sorriso radiante ao universo, enquanto procuro o lugar ideal para poder responder tranquilamente, à chamada telefónica tão desejada.

Respiro profundamente, e na minha mente surge um pensamento;

 

- Este é um daqueles momentos, que me faz sentir que sou uma sobrevivente. Solto uma gargalhada interior e ligo para a pessoa.

 

- Onde estas?

 

- Estou no Rossio. Acabei de sair do metro e tu nem imaginas como me sinto triunfante!

 

Do outro lado, alguém muito divertido diz:

 

- O quê? Sentes-te triunfante, apenas com uma viagem de metro?

 

O cigarro chegou ao fim.

 

 

 

 

publicado por Aversão Beta às 11:44

24
Jan 12

  

 

 

O excesso de proteção faz com que os nossos filhos confundam independência com abandono. 

A relação existente entre o protecionismo e a sensação de abandono experienciadas na infância, vai influenciar determinantemente a qualidade dos relacionamentos futuros. O amor não deve prender mas sim libertar e mesmo que a prisão seja uma gaiola dourada, de que serve, se as portas estiverem sempre fechadas. 

 

Quem na infância foi demasiadamente protegido, ou melhor dizendo mal amado, o mais certo é os seus relacionamentos serem doentios.

São possessivos pois têm horror do abandono, no entanto não amam, nem poderiam, mesmo que o desejassem, pois não conhecem o sentimento de empatia. Foram como que mutilados, falta-lhes a melhor de todas as virtudes humanas, a consciência do outro. 

 

Para mim a verdadeira missão do homem é viver e partilhar e não apenas existir.

publicado por Aversão Beta às 17:35

28
Dez 11

 

 

 

Já não gosto de todas as pessoas...

 

No inicio não foi fácil, tornei-me uma pessoa amarga, pois tinha perdido a fé que sustentava o meu otimismo. No alto da minha ingenuidade, acreditava piamente que todos possuíamos uma centelha divina e que até o mais cruel dos mortais a teria, embora oculta, ela existia, imaculada à espera de ser encontrada.

 

No momento presente, continuo a acreditar que todos nascemos com uma alma, no entanto ela pode ser corrompida e a centelha divina vai mirrando, vai perdendo o seu brilho inicial até se tornar irremediavelmente, densa, disforme e até medonha.

Há medida que envelhecem, podemos ver a crueldade destes homens impressa nos seus rostos e mesmo que  tenham conseguido neutralizar e até mesmo liquidar todas as pessoas que se atravessaram no seu caminho, possuem um inimigo de quem nunca poderão escapar; o seu espelho!

 

A existência da alma foi um tema discutido por todas as correntes filosóficas e doutrinas do passado. Foram criadas muitas teorias que na atualidade pouco ou nada nos podem valer, pois todas elas possuem nem que seja um grão de verdade, mas nenhuma verdade absoluta foi encontrada. Cabe a cada um de nós, refletir sobre o melhor que se escreveu e realizou no passado e transporta-las para a nossa realidade, é surpreendente a quantidade de semelhanças que encontramos.

Todas as épocas foram caraterizadas por um espírito particular, com os seus maneirismos, dogmas e preconceitos, no entanto, todas elas incluindo a nossa, têm questões existenciais em comum e são esses pontos nevrálgico que dão à condição humana a noção de intemporalidade!

 

O Amor, a Alma, a Beleza, o Sexo, o Dinheiro, os Títulos, O Status Social, os Pecados da Alma, a Ciência, Religião, o Dinheiro, a Politica, o Casamento, a Homossexualidade, etc... sempre os mesmos temas século após século. Sobre estes temas muitas páginas foram escritas e grandes obras de arte foram criadas, infelizmente muitas delas foram queimadas.

Foram estes homens de Espírito e outras personalidades excecionais, os responsáveis pela nossa atual civilidade, que o dinheiro e o poder dos que o possuem em maior quantidade, sempre tentou corromper. Alguns padeceram na miséria para fugirem às garras desse poder, outros morreram entre as grades, outros mesmo sob a aterradora ameaça da forca, deixaram-nos mensagens, lições de vida e verdades difíceis de contestar. Escreviam palavras vivas sob um pano floreado em que os factos e os detalhes "perigosos", embora ocultos podemos encontra-los nas entrelinhas.

 

Hoje já não existe o perigo aterrador da forca, de quê e de quem temos medo?

publicado por Aversão Beta às 18:21

30
Mai 11

 

 

Sentada na margem do ribeiro, com os pés imersos na agua, brincava com as pedras de xisto e escrevia o meu nome nelas. Divertia-me com as cocegas que os  pequenos peixes me faziam nos pés, julgando que eram comida. Observava as borboletas, as libelinhas, a vida dos pequenos insectos e as rãs sempre esquivas.

Este era o único lugar onde nunca sentia medo, nem mesmo as cobras de agua me assustavam,  era o meu pequeno paraíso.
Se tinha fome, subia às árvores e colhia a fruta que me apetecia, deitava-me à sombra de uma árvore e ficava ali, tempos infinitos a sonhar acordada. No regresso a casa, comia amoras silvestres e falava sozinha, pois sabia que ninguém me escutava.
Já tinha explorado os campos ao redor da pequena aldeia, com a excepção das propriedades da Dona Alzira. Quase todos os dias era advertida pela minha avó, que nunca atravessa-se aquelas terras sozinha, pois vivia lá  uma mulher que tinha fama de ser bruxa. A sua figura era imponente e mais forte que muitos homens. O povo respeitava-a, por temor à sua força de braços e ao poder das suas pragas. Vivia naquele imenso casarão com o seu marido paraplégico, que estava numa cadeira de rodas há mais de vinte anos.
Sempre que passava em frente àquela casa, ficava encantada com as árvores gigantes, com os seus troncos despidos de casca. O meu pai disse-me que eram carvalhos e que de sua casca se fazia a cortiça. Ficava a olhar para os seus ramos fortes e pensava;
- Um dia, irei trepar estas árvores...
Uma bela tarde de Verão, talvez entre os sete e os dez anos de idade, vencida pela curiosidade decidi desobedecer à minha família e atravessei a fronteira.
Contornei a casa, caminhando devagar junto à vedação. Quando cheguei às traseiras reparei num  enorme portão de ferro, dei dois passos e fui imediatamente denunciada pelo cão, que desatou a ladrar freneticamente. Num ápice, a mulher estava do lado de fora do portão a perguntar o que fazia a menina ali sozinha.
- Estou a passear. Respondi assustada.
- Queres entrar menina? Anda cá, tenho ali uns bolinhos de que vais gostar. Perguntou a mulher num tom de voz que me surpreendeu. A sua amabilidade não correspondia à imagem que me haviam dado a criar daquela pessoa. Mas eu sabia que a simpatia podia ser enganadora.
Lembrei-me da história da “Branca De Neve e Os Sete Anões” na qual a bruxa se disfarçou de velhinha simpática e lhe vendeu maçãs envenenadas, e de uma outra na qual uma velhinha simpática, que tinha uma casa na floresta feita exclusivamente de doces, que seduzia as crianças com mil guloseimas, para depois de estarem bem gordinhas, as comer. 
Pensei mais uma vez nas advertências da minha família e rejeitei o convite educadamente. No entanto, a mulher, conhecedora da curiosidade infantil, perguntou-me se eu queria ver as cabritas dela. Dei um pequeno passo para espreitar as cabras e o cão avançou para mim a ladrar. Assustada, agarrei-me às saias da mulher que afavelmente me disse:
- Não tenhas medo, o cão não te faz mal. Ele só ladra a quem passa sorrateiramente, para não me cumprimentar. Foi isso não foi? Ias passar em frente à minha casa e não vinhas cumprimentar a tua prima?
A surpresa de aquela mulher ser minha prima atingiu-me como um raio. Tinha uma prima bruxa!
Tinha sido apanhada em flagrante e não podia desatar a correr dali para fora, pois ela era da minha família e isso seria uma falta de educação que os meus pais mais tarde teriam de explicar;
O que é que vocês dizem a meu respeito? A vossa filha quando me vê, desata a correr como se tivesse visto um mostro!
Nem queria imaginar a expressão dos meus pais perante semelhante situação.
Entrei no pátio, e arrependi-me logo, assim que me apercebi da presença do seu marido sentado numa cadeira de rodas. O homem esboçava uma espécie de sorriso, estava sempre a tremer e falava através de uns grunhidos indecifráveis, que a mulher traduzia:
Ele está a dizer que és muito bonita e que és parecida com a tua mãe.
Dizia a mulher enquanto colocava um grande lenço negro na sua cabeça.
Mostrou-me as cabritas, apresentando cada uma pelo seu nome. A cada um que ela dizia, eu largava uma gargalhada.
- Esta é a Russa, porque é loira e aquela é a Morena porque é castanha e esta é a Malhada porque tem manchas.
- Então e aquela que tem os chifres maiores, como se chama?
- Esse é o bode, o namorado das cabritas. Respondeu divertida, pela a inocência da minha pergunta.
- Queres ir mais eu pastar as cabritas?
- Sim! - Respondi prontamente, pois já não sentia medo.
- Então vamos preparar uma merenda para nós e assim as cabritas comem a erva fresquinha e nós os bolinhos.
Desde esse dia foram muitas as tardes que eu escapava clandestinamente para casa da minha prima Alzira. Anos mais tarde percebi que eu não era a única. Depois do almoço, a minha avó dormia uma sesta e por vezes a minha mãe desaparecia misteriosamente, chamava por ela e nunca obtinha resposta. Um dia surpreendi-a a passar a fronteira proibida, disfarçou que tinha ido falar com a Alzira sobre um assunto importante, no entanto eu conhecia o verdadeiro motivo das suas visitas à prima Alzira, era para saber o que verdadeiramente se passava na aldeia durante as nossa ausência.
Quando a minha mãe se demorava a visitá-la, aparecia de surpresa. Chamava pela minha mãe bem alto para que todos ouvissem e depois desmascarava-a dizendo:
- Então que gente é esta? Já chegaram há tanto tempo e não me foram visitar? Nem para ir buscar umas alfaces, que as lá tenho tão vicosas. Aposto que ainda não vos deram nada de jeito. Referia-se ao povo, que usava gratuitamente a nossa agua para as suas colheitas, mas segundo a opinião dela, na hora de dar alguma coisa, era pouco e de má vontade.
- Têm aqui um canastrão com tomates, feijões e couves. As alfaces, se as queres, vêm colhê-las mais eu, amanhã pela fresquinha. Era a sua pequena vingança.
A minha avó ficava furiosa, mas não podia impedir que no dia seguinte a minha mãe fosse colher as alfaces com a prima Alzira, pois isso, seria assumir que proibia a filha e as netas de a visitar.  O que teria a prima Alzira a dizer sobre isso? O que quer que fosse não interessaria com toda a certeza à minha avó.
Na manhã seguinte, lá íamos nós colher as alfaces, ou outra coisa qualquer. Como eu ainda era uma criança que segundo os adultos ainda não entendia as coisas da vida, falavam à minha frente, como se eu não estivesse presente. Eu ficava atenta às conversas e não fazia perguntas, para não levantar suspeitas sobre o meu precoce entendimento das coisas da vida. O que me agradava mais nestas conversas, era conhecer um lado da minha mãe que ela pouco revelava. Aquela mulher tinha um poder muito especial; As pessoas na sua presença revelavam-se e quando lhe tentavam escapar, ela fazia-lhes um cerco tal que não tinham como fugir à verdade.
Com a minha prima Alzira “A Bruxa”, aprendi que as mulheres fortes não têm, também elas, como escapar à sua verdade irrefutável nem à sua solidão.

publicado por Aversão Beta às 22:30

28
Fev 11

 

 

Um aroma pode ser inesperado, momentâneo e fugaz e ao mesmo assim, pode marcar para sempre um instante da nossa vida. O olfacto é o mais poderoso dos nossos sentidos, o seu efeito é imediato e não existe falta de memória em relação aos odores.

A memória olfactiva reconhece o cheiro e imediatamente comunica ao corpo o seu significado ao resgatar as emoções que foram associados a ele no passado e que geraram a memória.
A minha actividade profissional exige uma distância interpessoal de cerca de quarenta centímetros, logo a minha memória odorífera é composta por uma panóplia imensa de odores. Fora do meu ambiente profissional, sou muito selectiva com os cheiros e recuso-me a tolerar cheiros desagradáveis.

Um dos cheiros que me causa mais repulsa nas pessoas é o cheiro de tabaco e álcool, acumulado por um ou vários dias. Este cheiro agrava-se com mais rapidez nas pessoas que possuem bigodes, barba ou tem cabelos fartos. Se somarmos a este cheiro o de uma casa húmida, velha, cheia de bolores e pó acumulado durante décadas, é o exemplo mais próximo que eu encontro da decadência urbana.
Os odores das pessoas do campo não me incomodam, no verão cheiram a terra e a suor e no inverno cheiram a terra e ao fumo das suas fogueiras. Uma familia à volta de uma lareira a conversar enquanto contemplam o crepitar do fogo, faz parte do meu imaginário infantil e o cheiro do fumo faz parte.

Pelo cheiro consigo diferenciar um idoso que vive na cidade, do idoso que vive no campo, se está ao cuidado de alguém ou se por sua conta.
Pelo cheiro consigo adivinhar algumas profissões; Os metalúrgicos, os serralheiros e os mecânicos trazem um cheiro metálico com eles, que nem uma higiene cuidada evita que esse odor lhes trespassasse a roupa e a pele. Os cozinheiros e principalmente os ajudantes de cozinha, que não cuidam bem da sua higiene, cheiram a cebola retardada, a fritos, ao fumo libertado das grelhas de carvão. As empregadas de limpeza e o seu cheiro característico a lixívia e sonasol e os funcionários públicos, arquivistas e bibliotecários que têm um cheiro característico a papel velho e a bolor, devido ao convívio diário com quantidades astronómicas de papel envelhecido pelo tempo.

Os nossos odores corporais têm uma linguagem própria, falam sobre o nosso estado geral de saúde, das nossas emoções, dos cuidados de higiene, da nossa profissão, do lugar onde vivemos e das nossas memórias.
Por vezes sou surpreendida por um odor familiar que me faz lembrar algum momento em particular da minha vida, de que eu já não me lembrava. Esse momento é tão arrebatador que me faz pensar, que alguns momentos e até anos da nossa vida são mais bonitos na memória do que em qualquer instante em que os tenhamos vivido.

publicado por Aversão Beta às 17:01

21
Fev 11

 

 

A formula do amor que sem ser algébrica, é o somatório de dádivas, a multiplicação de afectos, as diferenças de dons que se vão dando e tirando à medida que se recebem e a divisão de bens. 

Enquanto Homens e Mulheres não entenderem esta Matemática, continuará a haver esse ranger de dentes e o atirar de pedras, que cada um vai retribuindo cada vez com mais força, deixando a alma irremediavelmente ferida.

Os dois a sofrer cada um para seu lado, quando o melhor é abraçarem-se e juntarem os sofrimentos, pela mistura das lágrimas, a troca dos beijos, a força dos afectos e dizerem um ao outro a palavra mágica mas sincera do “perdoa-me... vou procurar não voltar a chegar a extremos tão altos.”

Eis a receita da reconciliação:- Depois de cada um arrancar da tábua do outro, o prego que lá espetou e no lugar do prego, colocar uma lágrima de arrependimento, faça uma lavagem séptica ao rancor. Deixe a relação em repouso absoluto e espere que o tempo faça o resto. Verá que assim será mais fácil descobrir, que ponta da teia do rosário de mágoas é que é possível começar a desenrolar..
Com sensibilidade e sentido do outro, a clarividência da alma virá à superfície, depois basta retocá-la com afecto, compreensão, partilha, entreajuda, respeito mútuo e ficarão a saber que amar é assim.

publicado por Aversão Beta às 12:49

18
Fev 11

 

 

Após muitos anos de observação e experiencia no campo dos relacionamentos amorosos, cheguei à conclusão que não encontrei nenhuma verdade absoluta, mas aprendi, a reconhecer e a compreender, os paradoxos existentes em cada ser humano.
Cresci numa sociedade patriarcal em que os homens escolhiam prioritariamente as suas esposas, ou seja a mulher ideal para cuidar de si, da casa e dos seus filhos. Nesta escolha o amor e a paixão não eram uma premissa essencial. A segunda escolha era a amante, a mulher a quem dedicaria as paixões mais fervorosas.

As mulheres eram educadas unicamente para serem esposas, logo, ser amante significava cair em desgraça. À semelhança do amor Romântico, a mulher não tinha escolha, algumas foram amantes e esposas mas raramente do mesmo homem. Esta dualidade forçava o homem e a mulher à divisão de si mesmos, no entanto os homens divertiam-se muito mais. Recordo-me de ter questionado varias vezes, porque razão as mulheres mais emancipadas eram consideradas menos competentes? E por outro lado pensava; se as esposas são assim tão perfeitas, porque razão os homens enlouqueciam de paixão nos braços das suas amantes?

Ter que escolher uma parte de mim e abdicar da outra, para mim significava a "auto mutilação da minha identidade feminina." Estava determinada a ser uma mulher emancipada e competente. Se na altura eu tivesse adivinhado o que iria sofrer com esta decisão, provavelmente ter-me-ia assustado.

Esta obsessão pelos géneros, o casamento, a orientação sexual, as verdades e os mitos sobre a monogamia, foram temas que despertaram a minha curiosidade desde tenra idade, a primeira vez que disse à minha família que nunca ia casar tinha apenas sete anos. No jogo do faz de conta dos papás e das mamas, eu inventei outro personagem, a cozinheira, talvez seja por isso que adoro cozinhar.

O objectivo da minha mãe, em fazer de mim uma menina bonita como a minha irmã havia sido, foi infrutífero. As formas do meu corpo assemelhavam-se mais às de um menino, logo os vestidos de princesa da minha irmã, com folhos e lacinhos por todo o lado, ficavam-me terrivelmente mal. O meu cabelo era encrespado e indomável nas mãos da minha mãe e das cabeleireiras, que tentavam sem sucesso fazerem-me os penteados da moda. O que me recordo melhor, foi o famoso corte à tigela, em que o resultado foi catastrófico, a minha cabeça ficou mais parecida com uma vassoura do que com uma tigela. Tenho fotos que podem comprovar que não estou a exagerar.
Hoje acredito que o casamento conturbado dos meus pais e uma infância assexuada, tiveram um peso determinante na construção da minha identidade.
Simone de Beauvoir disse que "Não se nasce mulher, tornamo-nos mulheres." Concordo profundamente com esta frase e lamento imenso não a ter lido vinte anos mais cedo.

Ainda nos dias de hoje, em pleno, séc. XXI, uma mulher Portuguesa que tome essa decisão, tem de estar preparada para sofrer algumas adversidades. No contexto sociocultural o patriarcado ainda se encontra muito enraizado e o que me surpreendeu mais, foi ter sido mais vezes vitima de mulheres do que de homens.

Em Portugal depois do 25 de Abril, uma grande percentagem de mulheres começaram a trabalhar fora de casa, para algumas, a independência financeira foi determinante para a sua liberdade de escolha, inclusive a opção do divórcio. Juridicamente essa opção já existia, mas moralmente o divorcio ainda estava muito longe de ser bem aceite pela sociedade. Entende-se perfeitamente porquê que os homens eram contra o divórcio, quanto às mulheres era outro paradoxo, por um lado o divórcio significava ter liberdade de escolha, por outro lado, depois de tantos séculos sob a tutela dos homens, as mulheres deixaram de saber o que fazer com a sua liberdade. Para as mulheres casadas as divorciadas eram potencialmente perigosas, pois podiam roubar-lhes os seus maridos ou serem suas amantes, este receio reforçava ainda mais a resistência ao divórcio.

Quando era criança, recordo-me de a minha mãe me proibir de brincar com filhos de pais separados, eram julgados por todos como maus exemplos da sociedade, no entanto era permitido ao homem ter uma ou varias amantes, abandonar a mulheres e os filhos, agredir as suas mulheres e os filhos e a mulher tinha de se subjugar a tudo isto se não queria cair em desgraça.

Os homens da actualidade têm um discurso conceptual muito diferente das gerações anteriores, no entanto, ainda mantêm muitos comportamentos de um passado demasiado recente para deixarem de ceder aos velhos padrões morais.
A realidade é feita de paradoxos, o que pensamos que somos e o que somos na realidade é o que nos define verdadeiramente.

Findadas as perguntas múltiplas da adolescência, os meus actuais problemas existenciais resumem-se a uma única questão; Estarei eu a representar o drama do amor, devido à incapacidade que tenho para amar?
É histeria ou amor o que sinto? Este é o chamado paradoxo de asno de Buridan, que levanta outra questão; Uma escolha racional pode ser feita entre duas possibilidades de igual valor?
Está visto que tenho que deixar de ser asno, o amor não se explica.

publicado por Aversão Beta às 17:26

08
Jun 10

 

 

Somos tão únicos e pequenos neste universo tão vasto (...) ouço tocar um violino que grita com o fôlego da vida.

As suas cordas vibram nas mãos de alguém, soltando notas musicais que se propagam no ar, vibrando sobre o suporte da rede electromagnética da terra.
À semelhança das notas musicais, o homem também está conectado com a rede electromagnética da terra e essa vibração pode ser medida.

Em 1952, W.O.Schumann descobriu que no interior da atmosfera e em volta da terra, existe um padrão harmónico contínuo de ondas constantes que cria um campo energético constante com uma frequência ressonante de 7,83 ciclos por segundo, designada por "ressonância de Schumann". A sua frequência fundamental correlaciona-se com a gama média do ritmos alfa do cérebro, a gama de frequências que exibimos quando estamos num estado meditativo.
E desde que Schumann fez essa descoberta, as medições desta ressonância ambiental inata também revelam sons harmónicos da sua frequência básica que residem na faixa de variação das ondas cerebrais humanas. Assim como a energia flui no nosso corpo através de meridianos, esses canais formam uma rede muito semelhante à da terra.

Durante os últimos cinquenta anos, os geomantes ocidentais também descobriram que existem quadriculas energéticas que percorrem a terra e que as energias subtis do seu biocampo têm a forma de um dodecaedro, que é a quinta das cinco formas sólidas elementares. Estas cinco formas são denominadas "sólidos de Platão", há dois mil e quinhentos anos foi ele o primeiro a descrever as suas propriedades geométricas e a atribuir um dos elementos primários, terra, agua, ar e fogo. Ao quinto elemento, o dodecaedro com as suas doze faces pentagonais, atribuiu o elemento do éter, uma energia universal que tudo inclui, cuja existência está actualmente em reavaliação pelos cosmólogos.

Na Sibéria, que foi a célula-mater do xamanismo tinham como premissa básica, o reconhecimento de que todos fazemos parte da Família Universal e tudo está interligado, o "Espírito Essencial" estava dentro do homem, na natureza e em todos os seres.
Se tudo o que existe está interligado, porque razão é tão dificil acreditar que fazemos parte de uma familia universal?
Vivemos na ilusão da separação, quando na realidade todos nós usamos a mesma energia e as nossas energias individuais interagem entre si. A separação entre o ar nas várias divisões de uma casa é inexistente, o que muda é a densidade. Trata-se de uma analogia  simplista, mas permite-nos entender melhor o que nos separa uns dos outros.
Sendo a densidade a relação entre a massa de um corpo e o seu volume, a opacidade é o logaritmo da densidade. Por sua vez a opacidade, mede a quantidade de luz que é absorvida pela matéria, sendo esta inversamente proporcional à transmissão de luz reflectida.
Aplicado ao ser humano podemos dizer, que quanto mais denso for o nosso biocampo energético mais opaco será, logo maior será a absorção.

O ideal é reciclar a energia absorvida, liberta-la, de uma forma construtiva, ou seja criar. Criar para depois, transmitir aos outros.
Quando deixamos de libertar energia, a energia absorvida acumula em excesso e quando encontra uma saída explode violentamente.
Por vezes este fenómeno é percepcionado fisicamente. Alguns de vocês já devem ter experimentado, uma espécie de descarga eléctrica quando estão na presença de alguém que não representa qualquer ameaça, pelo menos de forma consciente, no entanto, sentimos que o nosso corpo nos envia sinais de alerta semelhantes aos que sentimos quando nos sentimos ameaçados ou em perigo.
Entulhados de lixo torna-se difícil transmitir luz aos outros.

publicado por Aversão Beta às 18:31

05
Mai 10

 

 

A paixão e o casamento são por essência incompatíveis, a sua origem e os seus objetivos são mutuamente excludentes. A sua coexistência faz surgir incessantemente nas nossas vidas problemas insolúveis e esse conflito ameaça constantemente a nossa estabilidade emocional.

Quando o casamento impossibilita a realização do projecto existencial e a valorização do "nós" conjugal se sobrepõe à valorização do "eu", o casamento torna-se um fardo pesado. A anulação é o preço a pagar por ter alguém ao nosso lado.
Para que a paixão e o casamento possam coexistir é necessário que o outro enriqueça a relação, que acrescente algo de novo e que possibilite o crescimento individual.
Na tentativa de harmonizar a aspiração de individualização surgem conflitos, pois terão que estar dispostos a sacrificar os seus projectos pessoais, em prol das expectativas do outro.

 

O mito do amor romântico leva inevitavelmente as pessoas a relacionam-se muito mais por necessidade do que pelo prazer da companhia do outro. Espera-se que o companheiro adivinhe o que o outro sente ou deseja e que esteja sempre pronto a fazer tudo para fazer a outra pessoa feliz. Não é assim com o bebé?

O receio de ser abandonado ou trocado por outra pessoa leva a exigir do parceiro que não tenha interesse em nada fora da vida a dois. O desejo de uma vida livre fica para segundo plano.

 

Até ao século XVIII e não só na cultura ocidental, havia uma diferença básica entre o amor no casamento e o amor fora do casamento. Vários textos judaicos e gregos mostram que o amor não era necessário ao casamento, cujo objectivo principal era a procriação. Antes da expansão do cristianismo, a moral estóica defendia a procriação como a unica finalidade e justificação do casamento. Um homem sábio devia amar sua mulher com discernimento e não com paixão, os homens deviam apresentar-se às esposas como maridos e não como amantes. A regra básica do código moral, defendia o amor-reserva no casamento e o amor-paixão fora do casamento.

 

O amor cortês era experienciado com paixão e não tinha nada a ver com o casamento, muito pelo contrário, opunha-se directamente ao casamento, uma vez que a amada era quase sempre uma mulher casada e o seu amante jamais seria seu marido.

Mas este cenário começou a mudar a partir da Idade Média. Era comum entre os camponeses os casamentos por amor, uma vez que entre os pobres, os motivos económicos pouco ou nada influenciavam na escolha do casamento. Na aristocracia a situação começa a mudar a partir do século XV, com a "era de Shakespeare", a literatura e o drama tratam o amor mútuo no casamento como uma regra básica, ainda que sem ser a única.

 

A partir do século XVIII, quando o amor romântico se torna o ideal de casamento, o erotismo expulsa a reserva tradicional, mas introduz um outro aspecto importante: coloca à prova a duração do casamento. Como o amor-paixão quando associado ao matrimónio, geralmente não dura muito tempo, o divórcio surge não como forma de reparar o erro, mas como a sanção normal de um sentimento que deixou de existir.

Redefinir as expectativas e idealizações sobre o casamento é o grande desafio que os casais modernos enfrentam nos dias de hoje. A grande maioria das mulheres da atualidade não se sentem preenchidas quando são só amantes e menos ainda quando são só esposas. Cada vez mais as mulheres rejeitam viver as suas vidas desfragmentadas dos seus dois elementos naturais; a mãe e companheira e a amante.

 

No ocidente os papeis de mãe e de esposa, têm a sua origem nas comunidades Grego Romanas da antiguidade, em que a mulher era a administradora da "Oikos", significa "Lar". Vigiavam o serviço das escravas e quase nunca saíam de casa, a não ser para irem a casa dos seus pais ou às festas religiosas. Não podiam ir ao mercado, nem aos banquetes com o marido. As ocupações das mulheres resumiam-se em dar ao marido e aos filhos tudo o que necessitassem e eram responsáveis pela educação dos filhos. Na actualidade existe ainda um numero significativo de mulheres que trabalham fora de casa e ainda mantêm as mesmas funções da mulher Romana. Mas este é outro assunto, que abordarei em outra ocasião. 

 

Ao longo de muitos séculos de evolução da emancipação feminina, os papeis essencialmente masculinos e femininos foram sofrendo mutações. Na actualidade com a participação da mulher no mercado de trabalho e o seu contributo no orçamento familiar, os antigos papeis de "passivo" que geralmente correspondia ao sexo feminino e ao "activo" que cabia ao sexo masculino, fundiram-se sobre os pilares da igualdade entre os sexos. A igualdade de direitos é o lado positivo desta grande mudança mas têm um lado obscuro. As diferenças entre os dois sexos são não só necessárias como vitais para continuar a existir atracção entre os dois sexos. As nossas moléculas reptilianas não nos deixam desmentir. A nossa sexualidade está uma confusão que ninguém se entende, temos "activos" de varias espécies e géneros.

Num futuro próximo, a humanidade evoluirá no sentido da homogeneidade entre as raças e predominantemente andrógina.

publicado por Aversão Beta às 17:36

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